Capítulo 2 – Em que acontece muitas coisas, inclusive um teste
Tibério correu sobre o campo pulando de um lado para outro. Mallory
ainda estava lutando contra a parede do velho depósito, de costas para onde
Simon tinha estado.
Jared foi até ela e tirou de uma vez os fones de ou-vido de suas
orelhas pelo fio.
Ela se virou, apontando a espada para seu peito.
— O que foi?
— Uns goblins raptaram o Simon!
Os olhos de Mallory se
estreitaram. Ela olhou para o campo.
— Goblins?
— Vamos correr. — A voz de Tibério era tão aguda
quanto a de um pássaro. — Sem tempo a perder.
— Vamos. — Jared fez um gesto na direção do
depósito onde o pequenino gnomo estava esperando. — Antes que eles nos peguem.
— SIMON! — gritou Mallory.
— Cala a boca. — Jared segurou o braço dela e a
arrastou para o depósito, fechando a porta por trás deles. — Vão acabar te
ouvindo.
— Quem vai acabar me ouvindo? — perguntou Mallory. —
Os goblins?
Jared a ignorou.
Nenhum deles tinha entrado naquele lugar antes.
Cheirava a gasolina e mofo. Uma lona cobria um velho carro preto. Prateleiras
tomavam a parede, todas desorganizadas com latas de ferro e potes de conserva
cheios pela metade com líquidos
marrons e amarelos. Havia co-cheiras onde cavalos devem ter ficado muito tempo
atrás. Uma pilha de caixas e baús de couro ocupavam um can-to.
Tibério pulou em uma lata de tinta e apontou para as
caixas.
— Depressa, se eles chegam, não saímos vivos dessa.
— Se Simon foi raptado por goblins, porque nós
estamos mexendo no lixo? — indagou Mallory.
— Olha aqui — Jared disse, balançando o livro e apontando
para o desenho de uma pedra. — A gente está atrás disso.
— Que
ótimo — ironizou ela. — Vai ser muito fá-cil achar no meio dessa bagunça.
— Vem logo — Jared disse.
O primeiro baú continha uma sela, um punhado de
rédeas, alguns pentes, e outras coisas para cuidar de cava-los. Simon ficaria
fascinado ali. Jared e Mallory abriram juntos a próxima caixa. Ela
estava cheia de ferramentas velhas e enferrujadas. Depois acharam algumas
caixas entulhadas de talheres enrolados em toalhas sujas.
— A tia Lúcia nunca deve ter jogado nada fora —
comentou Jared.
— Olha aqui mais uma. — Mallory suspirou en-quanto
puxava uma pequena caixa de madeira por cima do seu irmão. A tampa deslizou
sobre um encaixe cheio de pó, mostrando uma pilha de jornais.
— Nossa, veja como são velhos — constatou Mallory. — Esses são de 1910.
— Eu nem sabia que existiam jornais em 1910 — disse Jared.
Dentro de cada pedaço dobrado de papel, havia um item diferente. Jared desenrolou um para desçobrir um par de binóculos de metal.
Em outro, ele achou lentes de aumento. As letras do jornal debaixo ficaram enormes. — Esse
é de 1927. São todos diferentes.
Jared pegou outra folha.
— “Garota se afoga em poço vazio.” Estranho.
— Ei, olhe para isso. — Mallory ajeitou uma das
folhas. — 1885. “Garoto da região desaparece.” Estão dizendo que ele foi
devorado por um urso. Olhe para o nome do irmão que sobreviveu: Artur
Spiderwick.
— Aliás está! Olha ele lá! — disse Tibério,
mergulhando em uma das caixas. Quando ele voltou à superfície, tinha o mais
estranho monóculo que Jared já tinha visto.
Cobria apenas um único olho e se prendia ao rosto com um prendedor ajustável de nariz, com dua fitas de couro e uma corrente. Apoiados com
firmeza no couro mar-rom, quatro grampos de metal seguravam uma lente de algum
tipo. Mas a coisa mais estranha sobre a geringonça era um conjunto de lentes de
aumento em braços móveis de metal.
Tibério deixou Jared pegar o monóculo e virá-lo de
cabeça para baixo nas suas mãos. Então o gnomo pegou uma pedra lisa, com um
buraco do centro até a parte de-trás.
— A lente da pedra. — Jared a alcançou.
Tibério foi para trás.
— Agora não, esquece. Você tem que provar que
merece.
Jared ficou horrorizado.
— Não temos tempo para charadas.
— Com ou sem tempo, tenho que saber o que você está
querendo.
— Eu só preciso dela para achar o Simon — disse
Jared. — Vou devolvê-la direitinho.
Tibério ergueu um dos olhinhos
marrons.
Jared tentou de novo.
— Prometo que não vou deixar ninguém usar isso... só
a Mallory... e, bom, o Simon. Ei! Foi você que sugeriu a pedra.
— Um menino é como uma cobra. Suas promessas só
duram uma hora.
Jared estreitou os olhos. Ele podia sentir a frustra-ção
e a raiva tomando conta dele e cerrou as mãos.
— Me dê a pedra.
Tibério não respondeu.
— Me dê.
— Jared? — advertiu-o Mallory.
Mas Jared nem a ouviu. Um ruído apareceu em sua
orelha enquanto ele perseguia e apanhava Tibério. O pequenino gnomo contorceu-se
quando foi agarrado, mu-dando de repente sua forma para uma lagartixa, um rato
que mordeu a mão de Jared, e depois uma lisa enguia que se contorcia muito
molhada. Jared era maior e foi rápido.
Finalmente a pedra caiu livre,
batendo no chão com um ruído. Jared pisou-a com o pé antes de deixar Tibério
ir. O gnomo sumiu enquanto Jared apanhava a pedra.
— Não sei se você deveria ter
feito isso — disse Mallory.
— Não me importo. — Jared colocou o dedo mordido na
boca. — Temos que achar o Simon.
— Esse negócio funciona? —
perguntou Mallory.
— Vamos ver. — Jared colocou a pedra nos seus
olhos e se virou para a janela.
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