Capítulo 3 – Em que Mallory finalmente coloca seu espadim em uso
Através do pequeno buraco na pedra,
Jared viu os goblins. Havia cinco deles, todos com cara de sapo e olhos de um
branco fosco sem nenhuma pupila. Não tinham pelos, as orelhas, presas à parte
de cima de suas cabeças, eram de gato, e seus dentes eram pedaços de vidros
quebrados e pequenas pedras pontudas. O corpo verde e inchado deles se movia
com ligeireza sobre a grama. Um segurava um saco manchado enquanto ores-to
cheirava o ar feito cachorro, indo em direção ao depósito. Jared se
afastou da janela, quase tropeçando em um velho balde.
— Eles estão vindo direto para cá — murmurou,
abaixando a cabeça.
Mallory segurou seu espadim com mais força.
— E o Simon?
— Eu não o vi.
Ela ergueu sua cabeça e examinou o lado de fora.
— Eu não estou vendo nada — anunciou.
Jared encolheu-se com a pedra segura à palma da
mão. O menino podia ouvir os goblins do lado de fora, rosnando e arrastando os
pés conforme se aproximavam. Ele não ousava olhar através da pedra novamente.
Então Jared ouviu o barulho da madeira velha
rachando.
Uma pedra acertou uma das janelas.
— Eles estão chegando — avisou Jared e enfiou o Guia
na sua mochila, sem se preocupar em afivelá-la.
— Chegando? —
respondeu Mallory. - Eu acho que eles já estão aqui.
Unhas arranhavam a lateral do celeiro e
pequeninos latidos vinham de debaixo das janelas. O estômago de Jared parecia
chumbo. Ele não podia se mover.
— Nós temos que
fazer alguma coisa — sussurrou.
— A gente tem que correr para casa — sussurrou
Mallory de volta.
— Não dá — disse Jared. A lembrança dos dentes
afiados e das garras dos goblins não o abandonava.
— Mais duas tábuas e eles estarão aqui dentro.
Ele fez que sim com a cabeça, meio
desinteressado, tentando forçar-se a se animar. Tateando, ele tentou adequar a
pedra no monóculo e prendê-la à sua cabeça. O prendedor incomodava seu nariz.
— Preparar para a largada — disse Mallory. — Um,
dois, três. Agora!
Ela abriu a porta e os dois dispararam na
direção da casa. Os goblins desabalaram atrás deles. Garras se prenderam à
roupa de Jared. Ele se livrou com violência e saiu correndo.
Mallory era mais rápida. Ela estava quase na
porta de casa quando um goblin agarrou as costas da camiseta de Jared e o
puxou com força. Ele caiu com a barriga na grama. A pedra saiu do monóculo. O
menino enterrou seus dedos na terra, segurando-a o máximo que podia, mas ele
estava sendo arrastado para trás.
Ele podia sentir as fivelas de sua mochila se soltando, e então gritou. Mallory voltou. Em vez de correr na direção da casa, ela veio até ele. A espada ainda estava nas suas mãos, mas não tinha jeito de ela descobrir contra quem estava lutando.
— Mallory — gritou Jared. — Não! Fuja!
Pelo menos um goblin deve tê-lo ultrapassado, porque ele viu o braço
de Mallory se sacudir e a ouviu gritar. Linhas vermelhas apareceram onde as
unhas a arranharam. Os fones de ouvido foram arrancados de seu pescoço. Ela
virou-se e atacou com a espada, distribuindo golpes no ar. Dava a impressão de
que os golpes não acertavam em nada. Ela balançou a espada em um arco, mas de
novo, nada.
Jared chutou forte com uma das pernas, acertando
em alguma coisa sólida. Ele sentiu que aquilo que o agar-rava havia afrouxado a
pressão, e empurrou o próprio corpo para a frente, protegendo com força sua
mochila daquelas garras. O conteúdo pulou para fora e Jared mal foi capaz de
agarrar o Guia a tempo. Na grama, ele pegou a pedra e se arrastou até
onde Mallory estava. Então, co-locou a pedra no rosto e olhou.
— Seis horas — gritou ele, e Mallory deu um
giro, golpeando naquela direção, acertando um goblin na orelha. O bicho urrou.
A espada não tinha ponta mas certamente um golpe machucava.
— Menores, eles
são menores. — Jared conseguiu se erguer e colar suas costas nas de Mallory.
Todos os cinco goblins estavam ao redor deles.
Um atacou pela direita.
— Três horas — gritou Jared.
Mallory jogou o goblin no chão com toda
facilidade.
— Meio-dia! Nove horas! Sete horas. — Eles
estavam atacando todos ao mesmo tempo e Jared achou que Mallory não fosse dar
conta. Ele ergueu o Guia e lançou-o tão forte quanto podia no goblin
mais próximo.
Tum! O livro bateu
pesado o suficiente para fazê-lo estatelar-se para trás.
Mallory tinha nocauteado mais dois com golpes
duros. Agora eles circulavam com mais cautela, rangendo os dentes de vidro e
pedra.
Houve um estranho chamado, como uma mistura de
um latido com um zunido.
Com aquele
barulho, os goblins fugiram um por um para a floresta.
Jared deixou-se cair na grama. Ele tinha se
machucado e estava sem fôlego.
— Eles foram embora — disse Jared. Ele deu a
pedra a Mallory. — Veja. Mallory sentou-se perto dele e levou a pedra ao olho.
— Eu não estou vendo nada, mas eu não vi nada há
um minuto atrás do mesmo jeito.
— Eles ainda podem voltar. — Jared se virou e abriu o Guia, mudando de páginas rapidamente. — Leia isso.
— “Goblins nadam em bandos nômades procurando por problemas.” — Mallory fez uma cara feia para as palavras. — E, olha, Jared: “Gatos e cães desaparecendo é um sinal de que
os goblins estão por perto.”
Eles trocaram um olhar.
— Tibbs — disse Jared com um calafrio.
Mallory continuou lendo.
— “Goblins nascem sem dentes e então acham
substitutos, tais como caninos de animais, pedras afiadas, e pedaços de vidro.”
— Mas não diz nada sobre como pará-los — falou
Jared. — Ou para onde eles possam ter levado Simon.
Mallory não tirou os olhos da página.
Jared tentava não imaginar o que os goblins
pudes-sem querer com Simon. Parecia muito óbvio para ele o que eles faziam com
cães e gatos, mas não queria pensar que seu irmão pudesse ser... pudesse ser devorado.
Seu olhar intenso caiu nas ilustrações daqueles dentes horríveis.
Certamente não. Certamente haveria alguma outra
explicação.
Mallory suspirou
profundamente e apontou para o desenho.
— Logo vai escurecer, e com olhos como esses,
provavelmente eles vão enxergar melhor do que nós.
Aquilo parecia muito inteligente. Jared resolveu
escrever uma nota no Guia sobre aquilo quando eles conseguissem Simon
de volta. Ele limpou o monóculo e introduziu a pedra no lugar novamente, mas
os prendedores estavam muito frouxos para segurá-la.
— Não está funcionando — informou Jared.
— Você tem que ajustá-lo — disse Mallory. — Nós
precisamos de uma chave de fenda ou de alguma coisa assim.
Jared pegou um canivete do bolso de trás de suas
calças. Havia ali uma chave de fenda, uma pequenina faca, uma lente de
aumento, uma lixa, tesouras, e um lugar onde um dia esteve um palito de dente.
Apertando os prendedores cuidadosamente, ele ajustou a pedra no lugar.
— Aqui, me deixe prendê-lo
direito na sua cabeça. — Mallory amarrou as tiras de couro até a geringonça
estar apertada. Jared tinha que entortar os olhos para ver direito, mas estava
muito melhor do que antes.
— Pegue isso — disse Mallory, e entregou a ele
uma bela espada. Não tinha ponta, no entanto, então ele não tinha certeza do
quanto ela podia ser útil.
Contudo ele se sentia melhor por estar armado. Enfiando
o Guia na mochila, apertando as tiras e segurando a espada na sua
frente, Jared começou a descer a encosta em direção às árvores escuras.
Estava na hora de achar Simon.
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