Capítulo 1 – Em que o mundo vira do avesso
A luz tênue do
amanhecer fazia brilhar o orvalho na grama por onde caminhavam Jared, Mallory e
Simon, à margem das estradas. Eles estavam cansados, mas a necessidade de chegar
em casa os mantinha em movimento. Mallory tremia de frio em seu vestido branco,
leve, apertando sua espada com tanta força que as juntas dos dedos ficavam
brancas. Ao lado dela, Simon se arrastava, chutando pequenos pedaços do
asfalto. Jared também estava quieto. Cada vez que seus olhos se fechavam,mesmo que
rapidamente, ele só conseguia ver goblins — centenas de goblins, todos sob a
liderança de Mulgarath.
Jared tentou distrair-se planejando o que diria
a sua mãe quando finalmente chegasse em casa. Ela estaria furiosa por terem
passado a noite inteira fora de casa e mais brava ainda com Jared por causa da
história do canivete. Mas agora ele podia explicar tudo. Imaginava-se contando
à mãe sobre o ogro mutante, o resgate de Mallory capturada pelos anões e a
maneira como tinham conseguido enganar os elfos. Sua mãe olharia para a espada
e teria que acreditar em tudo o que lhe diziam. Depois, ela teria que perdoar
a Jared por tudo.
Um som agudo, como o assobio de uma chaleira,
trouxe-o de volta ao presente. Eles estavam no portão da propriedade
Spiderwick. Para horror de Jared, lixo, papéis, penas e mobília quebrada
estavam amontoados no jardim.
— O que é tudo isso? — perguntou Mallory.
Um guincho fez com que Jared olhasse para o
alto, onde o grifo de
Simon perseguia uma pequena criatura em cima do telhado, derrubando pedaços de
telha. Penas voavam por toda a parte.
— Byron! — gritou Simon, mas o grifo não
o ouviu ou então preferiu ignorá-lo. Simon virou-se para Jared, exasperado. —
Ele não devia estar ali no alto. Sua asa ainda está ferida.
— O que é que ele está perseguindo? — perguntou
Mallory, apertando os olhos.
— Acho que é um goblin — disse Jared,
lentamente. A lembrança dos dentes e das garras vermelhas de sangue
despertava-lhe um medo horrível.
— Mãe! — gritou Mallory e saiu correndo em
direção a casa.
Jared e Simon a seguiram. De perto, viram que as
janelas da velha mansão estavam estouradas e que a porta da frente estava
pendurada, presa só por uma dobradiça.
Eles entraram correndo na casa, atravessaram a
oficina, pisoteando chaves e casacos rasgados espalhados pelo chão. Na
cozinha, pingava água da torneira, que transbordava da pia repleta de pratos
quebrados até escorrer pelo assoalho imundo por causa dos montes de comida que
descongelavam, sacos caídos de dentro do refrigerador tombado, de porta aberta.
O papel de parede estava esburacado e coberto por uma poeira que se misturava
ao trigo e cereal derramados sobre o fogão.
A mesa da sala de jantar ainda estava de pé, mas
várias cadeiras tinham sido derrubadas, os estofamentos rasgados. Uma das
telas dos quadros do tio-avô tinha sido cortada fora da moldura quebrada, embora
ainda estivesse pendurada na parede.
A sala de estar parecia ainda pior: a televisão
fora arrebentada e a mesinha onde ela ficava tinha sido enfiada dentro da
tela. Os sofás estavam detonados e o estofo se espalhava pelo chão como flocos
de neve. E no meio de tudo, sentado sobre os restos de um banquinho de brocado,
estava Tibério.
Ao aproximar-se
do pequeno gnomo, Jared pôde ver que Tibério trazia uns arranhões fundos,
longos, no ombro e que seu chapéu tinha sumido. Ele piscou para o garoto com
olhos pretos e úmidos.
— É tudo culpa minha, tudo minha culpa — disse
Tibério. — Eu tentei lutar, mas minha magia é muito leve. — Uma lágrima desceu
por sua face magra e ele a limpou, irritado. — Se fossem só os goblins, eu
poderia ter enfrentado tudo sozinho. Mas aquele ogro olhou para mim e riu.
— Onde está minha mãe? — perguntou Jared. Ele
sentia o corpo todo tremer.
— Um pouco antes do amanhecer, eles a amarraram
e a levaram embora — disse Tibério.
— Eles não podem ter feito isso! — A voz
de Simon mais parecia um guincho. — Mamãe! — chamou, subindo as escadas
correndo, gritando até o próximo andar. — Mamãe!
— Precisamos fazer alguma coisa — disse Mallory.
— Nós a vimos —
disse Jared baixinho, sentado no sofá arruinado. Ele sentia tontura, frio e
calor, tudo ao mesmo tempo. — Na mina. Era ela o adulto que os goblins tinham
aprisionado. Mulgarath a mantinha presa e nós nem reparamos. Nós devíamos ter ouvido... Eu devia ter ouvido. Eu nunca devia ter aberto aquele livro estúpido do tio Artur.
O gnomo balançou a cabeça vigorosamente.
— Proteger a casa e seus moradores, este é o meu dever, com ou sem o Guia.
— Mas se eu o tivesse destruído como você disse, nada disso teria acontecido! — Jared deu um soco na própria perna ao dizer isso.
Tibério esfregou os olhos com o dorso da mão.
— Ninguém sabe se
isso é verdade ou não. Eu escondi o Guia... viu o que aconteceu comigo?
— Chega de ficar chorando sobre o leite
derramado... nenhum de vocês está ajudando!
Mallory agachou-se ao lado do banquinho,
entregando o chapéu ao gnomo.
— Para onde você acha que eles levaram a mamãe?
Tibério balançou a cabeça, tristemente.
— Os goblins são umas coisas sujas, o mestre
deles é pior que os discípulos. Eles sempre moram em lugares tão imundos quanto
eles, mas onde ficam eu não saberia lhes dizer.
Do alto veio o ruído de um assobio e um tinido.
— Ainda resta um goblin no telhado — disse
Simon, olhando para o alto. — Ele deve estar sabendo!
Jared levantou-se.
— Precisamos deter Byron antes que ele o engula!
— Certo! — disse Simon caminhando em direção à
escada.
Os três garotos
subiram os degraus e chegaram até o corredor que dava para o sótão. As portas
dos quartos do segundo andar estavam abertas. Roupas rasgadas, as penas de
dentro dos travesseiros e lençóis em tiras se espalhavam pelo corredor. Parte
dos quartos de Jared e Simon rachou pelo lado de fora, recipientes vazios
colocados no chão. Simon congelou, em seu rosto uma expressão aflita.
— Tomás? — gritou Simon. — Jéferson? Kitty?
— Venham — disse Jared.
Enquanto ele afastava Simon de seu quarto
destruído, avistou o armário do corredor. As prateleiras estavam sujas de
xampu e creme derramado, bem como as toalhas espalhadas no chão. E no fundo,
perto de uns sulcos no revestimento da parede, a porta secreta que dava para a
biblioteca de Artur tinha sido arrancada fora.
— Como foi que eles descobriram essa porta? —
perguntou Mallory.
Simon balançou a cabeça.
— Acho que
reviraram tudo para descobrir essa entrada.
Jared abaixou-se e arrastou-se até conseguir
entrar na biblioteca de Artur. A luz brilhante do sol que atravessava a única
janela do cômodo revelava todo o estrago. Lágrimas escorreram dos olhos dele quando
passou por um tapete de páginas rasgadas. Os livros de Artur tinham sido
desfolhados e espalhados pelo chão. Rascunhos rasgados e prateleiras
arrebentadas por toda parte. Jared olhou ao seu redor sem saber o que fazer.
— E aí? — perguntou Mallory.
— Foi tudo destruído — disse Jared. — A
biblioteca inteira está destruída.
— Ande — disse Simon —, vamos pegar esse goblin.
Jared concordou com a cabeça, apesar do fato de
que seus irmãos não pudessem vê-lo, e caminhou atordoado em direção à porta. Era
como se aquele cômodo tivesse sido profanado — um lugar que ficara em segredo durante tantos
anos — e Jared tinha a impressão de que nada voltaria a ser como antes.
Juntos, ele, Simon e Mallory subiram as escadas
do sótão, atravessando os cacos brilhantes dos enfeites quebrados, passando
por um manequim com um vestido rasgado. Sob a luz tênue, Jared conseguia ver a
poeira que se soltava juntamente com o ruído de garras do grifo, e do alto ele
podia ouvir mais ruídos.
— Mais um andar e chegamos no telhado — disse
Jared, apontando para o fim da escada. Ela dava para o cômodo mais alto da
casa, uma pequena torre com janelas revestidas de tábuas nos quatro cantos.
— Acho que ouvi uns latidos — disse Simon
enquanto subiam. — Aquele goblin ainda deve estar ótimo.
Quando alcançaram o topo da torre, Mallory
brandiu a espada contra a janela, arrebentando o revestimento. Jared tentou
espreitar pelo buraco.
— Vou primeiro — disse Simon, e, saltando sobre
a borda, galgando rapidamente sobre a madeira arrebentada, ele subiu
até o telhado.
— Espere! — gritou Jared. — Por que você acha
que consegue controlar aquele grifo?
Mas Simon não parecia prestar atenção.
Mallory apanhou o cinto, amarrou a espada a
prendeu na cintura.
— Vamos!
Jared balançou as pernas sobre o peitoril e
pisou no telhado. A luminosidade solar repentina quase o cegou e, por um
instante, seus olhos turvos percorreram a floresta que ficava atrás do gramado.
Foi então que ele viu Simon aproximando-se do
grifo, que tinha encurralado o goblin contra a parede da chaminé. O goblin era
o Gritalhão.
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