Capítulo 29 - June

20H07
DOIS DIAS DEPOIS DA MINHA LIBERTAÇÃO.
ARRANHA-CÉU OXFORD, BAIRRO LODO, EM DENVER.
22 °C INTERIOR.

Day foi libertado ontem, às sete da manhã. Desde então, já telefonei três vezes para ele, mas sem obter resposta. Foi somente há umas duas horas que finalmente ouvi sua voz no meu fone de ouvido.
- Tem compromisso para hoje, June?
Estremeci com a suavidade da sua voz.
-Você se importa se eu der uma passadinha aí? Quero falar com você.
- Pode vir - respondi. E isso foi tudo que dissemos.
Ele vai chegar daqui a pouquinho. Fico constrangida ao reconhecer que, apesar de eu estar tentando me ocupar há uma hora, arrumando o apartamento e escovando o pelo de Ollie, tudo em que consigo realmente pensar é no que Day tem a dizer.
É estranho ter novamente um espaço próprio para morar, mobiliado com uma infinidade de coisas novas e desconhecidas. Sofás macios, candelabros refinados, mesas de vidro, piso de madeira de lei. Artigos luxuosos que já não me fazem sentir inteiramente à vontade. Do lado de fora da minha janela, cai uma ligeira neve primaveril. Ollie dorme ao meu lado, em um dos dois sofás. Quando recebi alta do hospital, soldados me escoltaram de jipe até aqui, o arranha-céu Oxford. A primeira coisa que vi quando entrei foi Ollie, abanando a cauda loucamente, e empurrando o nariz, ansioso, para dentro da minha mão.
Eles me disseram que o Eleitor havia ordenado há muito tempo que meu cachorro fosse mandado para Denver, e que alguém cuidasse dele. Isso foi logo depois que Thomas me prendeu. Esse pequeno pedaço de Metias agora foi devolvido para mim. Eu me pergunto o que Thomas pensa disso tudo. Será que apenas seguirá o protocolo como sempre, e fará uma reverência na próxima vez em que me vir, prometendo sua eterna lealdade? Talvez Anden tenha ordenado que ele fosse preso, como ocorreu com a Comandante Jameson e Razor. Não sei explicar o que sentiria se isso tivesse acontecido.
Ontem enterraram Kaede. Queriam cremar seu corpo e afixar uma minúscula placa de metal na parede de um cemitério vertical, mas eu insisti em algo mais significativo, um jazigo de verdade. Sessenta centímetros de seu próprio espaço. Anden, evidentemente, concordou. Se Kaede ainda vivesse, onde estaria? Teria a República, com o tempo, conseguido induzi-la a entrar para a aeronáutica? Será que Day já visitou sua sepultura? Será que ele se culpa por sua morte, como eu me culpo?
Terá sido por essa razão que ele esperou tanto tempo para me contatar, depois que recebeu alta do hospital?
E agora, o que acontece? Para onde vamos daqui? Vinte horas e doze minutos. Day está atrasado. Meus olhos estão grudados à porta; não consigo fazer mais nada, receosa de não conseguir vê-lo se perder um segundo em outro assunto.
Vinte horas e quinze minutos. Um suave toque de campainha soa no apartamento. Ollie se agita, levanta as orelhas e choraminga. Ele chegou. Eu praticamente salto do sofá. Day pisa tão macio, que nem meu cachorro consegue ouvi-lo no vestíbulo do lado de fora.
Abro a porta, e fico estática. O "olá" que eu preparei para dizer fica retido na minha garganta. Day está à minha frente, com as mãos nos bolsos, absolutamente deslumbrante num uniforme da República novo em folha (preto, com listras cinzentas-escuras nos lados das calças e ao redor dos botões das mangas, uma espessa gola diagonal na jaqueta militar ao estilo das tropas de Denver, e elegantes luvas brancas de neoprene cujos punhos consigo ver saindo dos bolsos das calças, cada uma decorada com uma fina corrente dourada). Seu cabelo passa dos ombros numa camada reluzente, e está salpicado de delicados flocos da neve de primavera caindo lá fora. Os olhos adoráveis são de um azul impressionantemente brilhante; alguns flocos de neve reluzem nos longos cílios que os emolduram. Enfraqueço, e mal consigo me manter de pé.
Só agora me dou conta de que nunca o tinha visto usando qualquer tipo de roupa formal, muito menos uma indumentária de gala de soldado. Eu não estava preparada para tanto esplendor. Para o quanto ele poderia ficar ainda mais lindo sob circunstâncias que destacassem sua beleza.
Day repara na minha expressão e sorri.
- Isto foi para uma foto - ele diz, apontando para o vestuário - de um aperto de mão com o Eleitor. Não fui eu que escolhi, é evidente. Espero que não me arrependa de apoiar esse cara.
-Você conseguiu driblar a multidão reunida do lado de fora da sua casa? - pergunto finalmente. Eu me recomponho o suficiente para moldar os lábios num sorriso de reação. - Ouvi boatos de que o povo quer que você seja o novo Eleitor.
- Day como Eleitor? Totalmente excelente... Eu nem mesmo gosto da República ainda. Vai demorar um pouco para eu me habituar. Quanto aos dribles, isso eu posso fazer. Prefiro não encarar o povo agora.
Percebo um indício de tristeza na sua voz; algo me diz que ele foi mesmo visitar a sepultura de Kaede. Ele pigarreia quando repara que o estou analisando, e então me entrega uma caixinha de veludo. Há uma distância gentil no seu gesto que me intriga:
- Comprei a caminho daqui. É para você, querida.
Um pequeno suspiro de surpresa me escapa.
- Obrigada.
Pego a caixinha cautelosamente, admirando-a por um instante, e inclino a cabeça para ele.
- O que estamos comemorando?
Day enfia o cabelo atrás de uma orelha e tenta parecer indiferente.
- Nada, eu só achei bonito.
Abro a caixinha com cuidado e respiro fundo ao ver o que ela contém: um cordão de prata, com um pequeno pingente de rubi em forma de lágrima, rodeado por minúsculos diamantes. Três fios finos prateados revestem o rubi.
- É... lindíssimo! - exclamo. Meu rosto enrubesce. - Deve ter sido uma fortuna!
Nem me reconheço. Desde quando passei a usar cordialidades formais para falar com o Day?
Ele dá de ombros.
- A República está me enchendo de dinheiro pra me manter feliz. O rubi é a pedra do seu signo, não é? Bem, achei que você deveria ter uma lembrança mais bonita de mim do que um anel xexelento feito com clipes de papel.
Ele acaricia a cabeça do Ollie, e depois verbaliza sua admiração pelo meu apartamento:
- Lugar maneiro este. Muito parecido com o meu.
Deram a Day um apartamento similar e fortemente vigiado, a uns dois quarteirões na mesma rua.
- Muito obrigada - repito, colocando o estojinho delicadamente no balcão da minha cozinha. Depois pisco para ele: - Mas ainda assim, eu gostava mais do meu anel de clipes de papel.
Por uma fração de segundo, seu rosto estampa felicidade. Tenho vontade de atirar os braços ao redor do seu corpo e fazer com que ele me beije, mas há uma certa opressão na sua postura. Algo que me diz que eu devo manter distância.
Arrisco um palpite hesitante para saber o que o está perturbando:
- Como está o Éden?
- Ele está bem - Day examina a sala uma vez mais, e depois fixa o olhar em mim novamente. - Considerando tudo o que ele passou, claro.
Abaixo a cabeça e comento:
- Eu... Sinto muito sobre o problema com a visão dele. Ele...
- Ele está vivo - Day me interrompe suavemente. - Isso já basta para me fazer feliz.
Concordo, constrangida, com a cabeça; segue-se uma longa pausa.
Finalmente, digo:
-Você queria falar comigo, não é?
- É... - Day olha para baixo, mexe nervosamente nas luvas, e volta a esconder as mãos nos bolsos. - Ouvi falar sobre a promoção que Anden ofereceu a você.
Dou meia-volta e me sento no sofá. Não se passaram sequer quarenta e oito horas, e já vi a notícia estampada duas vezes nos telões da cidade:

JUNE IPARIS COGITADA PARA
TREINAR POSIÇÃO DE
PRIMEIRA CIDADÃ

Eu deveria estar satisfeita por ter sido Day que abordou a questão. Estava me perguntando qual seria a maneira apropriada de abordar a questão, e agora já não preciso fazer isso. Ainda assim, meu pulso se acelera e me sinto tão nervosa quanto receava. Talvez ele esteja aborrecido porque não toquei logo no assunto.
- O que você já sabe? - pergunto, quando ele se senta ao meu lado.
Seu joelho esbarra ligeiramente na minha coxa. Até esse ligeiro toque me dá um frio na barriga. Olho de relance para o seu rosto, para ver se ele o fez de propósito, mas os lábios de Day mostram-se contraídos, como se já soubesse o rumo que essa conversa iria tomar, mas não quisesse tomá-lo.
- Ouvi por aí que você precisaria acompanhar todos os passos de Anden, não é? Você seria treinada para se tornar a Primeira Cidadã. Isso é tudo verdade?
Suspiro, baixo os ombros e afundo a cabeça nas mãos. Ouvir o Day dizer essas coisas me faz sentir a gravidade do compromisso que eu teria de assumir. Compreendo as razões práticas pelas quais Anden me indicaria para esse cargo; ele espera que eu seja alguém que possa transformar a República. Levando em consideração meu treinamento militar, tudo que Metias sempre me disse, sei que poderia ser uma boa opção para o governo da República, mas...
- Sim, é tudo verdade - respondo e acrescento rapidamente -, mas não se trata de uma proposta de casamento, nada disso. É um cargo profissional, e eu seria uma de várias pessoas concorrendo à posição, mas isso significaria semanas e até meses longe...
Longe de você, quero dizer, mas parece muito brega, e decido não concluir a frase. Em lugar disso, relaciono todos os detalhes que têm percorrido minha mente. Falo sobre a agenda extenuante de uma Primeira Cidadã, sobre meu plano de reservar um tempo para a vida pessoal – se eu concordasse com a proposta - e lhe digo que estou indecisa sobre quanto de mim quero dar à República.
Depois de certo tempo, percebo que comecei a divagar, mas me sinto tão bem ao desabafar, ao expor meus problemas para esse rapaz com quem me importo tanto, que nem tento parar de falar. Se alguém na minha vida merece saber de tudo, esse alguém é o Day.
- Não sei o que dizer ao Anden - concluo. - Ele não me pressionou, mas preciso dar uma resposta a ele em breve.
Day não diz nada. Minha torrente de palavras paira no silêncio entre nós. Não posso descrever a emoção do rosto dele. Alguma coisa perdida, alguma coisa arrancada do seu olhar e espalhada pelo chão. É uma tristeza profunda e séria, que me dilacera. O que estará se passando pela cabeça dele? Será que ele acredita em mim? Será que ele pensa – como aconteceu comigo, logo que ouvi a proposta - que Anden está oferecendo esse cargo porque tem um interesse pessoal em mim? Será que ele está triste porque isso significa que podemos ficar uns dez anos ou mais sem nos ver com freqüência? Eu o observo e espero, tentando prever o que ele vai dizer. É claro que vai ficar desgostoso com a idéia, é claro que vai protestar. Eu própria não estou satisfeita com...
De repente, ele murmura:
- Aceite a oferta.
Debruço-me em direção a ele, porque acho que não o escutei direito.
- O que você disse?
Day me analisa atentamente. Sua mão se contorce um pouco, como se ele quisesse levantá-la e tocar no meu rosto. Em lugar disso, ele permanece onde está, e repete suavemente:
- Vim aqui para lhe dizer que aceite a proposta dele.
Pisco os olhos. Minha garganta dói, minha visão oscila numa neblina de luz. Essa não pode ser a resposta certa; eu havia esperado uma dúzia de outras respostas de Day, exceto essa. Ou talvez não seja a resposta em si que me atordoa tanto e, sim, a maneira como ele a expressou, como se estivesse abrindo mão de mim. Eu o olho fixamente por um momento, e me pergunto se imaginei o que ele disse. Mas sua expressão - triste, distante - continua a mesma. Desvio o olhar e sento na beira do sofá.
Através do entorpecimento da minha mente, só consigo dizer:
- Por quê?
- Por que não? - Day pergunta. Sua voz está indiferente, amarrotada como uma flor fenecida.
Não compreendo. Talvez ele esteja sendo sarcástico. Ou talvez vá dizer que continua querendo encontrar uma forma de ficarmos juntos, mas ele não acrescenta nada à sua resposta. Por que me pediria para aceitar a oferta? Pensei que ele ficaria muito feliz por tudo ter finalmente acabado, e que nós poderíamos experimentar alguma coisa semelhante a uma vida normal de novo, seja lá o que isso fosse. Seria muito fácil para mim determinar um meio-termo com a proposta de Anden, ou até simplesmente recusá-la. Por que ele não sugeriu isso? Sempre achei que Day fosse o mais emotivo de nós dois.
Day sorri amargamente quando não respondo de imediato. Ficamos sentados com as mãos separadas, deixando o mundo parecer tão pesado, suspenso entre nós, ouvindo em silêncio o tempo passar. Depois de alguns minutos, ele respira fundo.
- Ah, tenho outra coisa pra dizer também.
Concordo com a cabeça, e espero que ele continue. Tenho medo do que ele vai dizer. Medo que ele explique o por quê.
Day hesita por um longo tempo, mas, quando fala, balança a cabeça e me dirige uma risadinha trágica. Percebo que mudou de idéia sobre o que ia dizer, pegando o segredo e guardando-o no coração.
- Sabe... às vezes me pergunto como seriam as coisas se eu... tivesse conhecido você do nada. Como fazem as pessoas normais. Se eu esbarrasse em você na rua numa manhã de sol e achasse você bonita, e então parasse, apertasse sua mão e dissesse:"Oi, meu nome é Daniel".
Fecho os olhos ao ouvir esse pensamento tão encantador. Como seria libertador! Tão simples.
- Seria muito bom! - sussurro...
Day aperta a correntinha dourada da sua luva.
- Anden é o Primeiro Eleitor. Pode não haver outra oportunidade como essa nunca mais...
Sei o que ele está tentando dizer e o interrompo:
- Não se preocupe. Se eu rejeitar essa proposta, ainda assim poderei trabalhar pela República, ou encontrar um meio-termo. Essa não é a única maneira...
- Escute o que tenho a dizer, June - ele diz calmamente, levantando as mãos para me deter. - Não sei se vou ter coragem para dizer tudo isso de novo.
A forma como os lábios dele pronunciam meu nome me faz estremecer. Ele sorri e sinto alguma coisa dentro de mim se despedaçar. Não sei o motivo, mas algo na voz dele me leva a pensar que ele está me vendo pela última vez. Que esse é um adeus.
- Ora vamos! Você e eu sabemos o que precisa acontecer. Nós só nos conhecemos há uns dois meses, mas passei a vida inteira combatendo o sistema que o Eleitor agora quer mudar. E você... bem, sua família sofreu tanto quanto a minha. - Ele faz uma pausa, e seus olhos exprimem uma aparência muito distante. - Eu me saio bem ao fazer discursos do alto de um prédio e ao lidar com o povo. Não sei nada sobre política. Só posso ser um testa de ferro, mas você... você sempre foi tudo de que o povo precisa. Você tem a oportunidade de mudar as coisas.
Ele tira as luvas e pega minha mão, acariciando o local no meu dedo onde ficava o anel que ele me deu. Sinto os calos nas suas palmas, a suavidade dolorosa do seu gesto. De repente, ele solta minha mão.
- É você quem resolve, claro, mas você sabe o que deve ser feito. Não tome sua decisão só porque se sente culpada ou coisa parecida. Não se preocupe comigo. Sei que é por isso que você está indecisa, dá pra ver no seu rosto.
Do que ele está falando? Dá pra ver o quê no meu rosto? Ainda assim, não digo nada.
Day suspira ao me ver calada. Seu rosto é pura dor.
- June - ele diz lentamente. Sob suas palavras, a voz parece falhar a qualquer instante a gente nunca daria certo.
Eis a verdadeira razão. Balanço a cabeça, sem querer ouvir o resto. Isso não. Por favor, Day, por favor não diga isso. Começo a falar de maneira desesperada:
- Posso trabalhar nas patrulhas da capital por um tempo. Essa seria uma opção mais viável. Ser a sombra de um senador, se eu realmente quiser entrar na política. Doze dos senadores...
Day não consegue nem olhar para mim.
- Nosso destino não é ficarmos juntos. Há muitas... Muitas coisas ruins aconteceram. - Ele baixa a voz. - Coisas demais.
A seriedade da coisa toda finalmente abre meus olhos. Não tem nada a ver com o cargo de Primeira Cidadã, e tudo a ver com outra coisa. Day estaria me dizendo tudo isso, mesmo que Anden não tivesse me proposto nada. Nossa briga no túnel subterrâneo. Quero dizer que ele está enganado, mas não posso sequer discutir seu argumento. Porque ele está certo. Como é que eu poderia pensar que nunca sofreríamos as conseqüências do que fiz a ele? Como pude ser tão arrogante em supor que no fim tudo daria certo para nós, e que algumas boas ações que eu fizesse poderiam compensar todo o sofrimento que lhe causei? A verdade nunca vai mudar. Mesmo que ele se esforce muito, toda vez que olhar para mim, verá o que aconteceu à sua família. Verá o que eu fiz. Isso irá assombrá-lo para sempre e será um obstáculo eterno entre nós.
Preciso deixá-lo ir. Sinto meus olhos ameaçando derramar as lágrimas que contenho, mas não me atrevo a deixar que caiam.
- Então é isso? - sussurro, com a voz trêmula do esforço. - Depois de tudo o que passamos?
Mesmo ao dizer essas palavras, sei que é inútil. O estrago já foi feito. Não há como apagar o que houve.
Day se curva e aperta as mãos nos olhos.
- Lamento muito, de verdade - murmura.
Passam-se demorados segundos.
Após uma eternidade, engulo seco. Não vou chorar. O amor é ilógico, o amor tem efeitos: eu causei isso a mim mesma, e devo arcar com as conseqüências. Portanto, June, assuma as conseqüências. Sou eu que devia lamentar muito. Finalmente, em lugar de dizer o que quero dizer, consigo diminuir o tremor da minha voz e dar uma resposta mais apropriada:
-Vou informar minha decisão ao Anden.
Day passa uma das mãos no cabelo, abre a boca para dizer alguma coisa, mas a fecha de novo. Percebo que há mais alguma coisa que ele não me está contando, mas não insisto. De qualquer maneira, não faria diferença: já existem razões suficientes para comprovar que não fomos feitos um para o outro.
Os olhos dele observam o luar que entra pelas janelas. Fkssa-se mais um instante entre nós, recheado apenas com a nossa respiração baixa.
- Bem, eu... - A voz dele falha, e ele cerra as mãos. Fica assim por um momento, revestindo-se de coragem. - Preciso dormir um pouco. Você deve estar cansada. - Ele se levanta e endireita o casaco. Trocamos um aceno final de despedida com a cabeça. Ele então faz uma reverência gentil e começa a ir embora.
- Boa noite, June.
Meu coração está em pedaços, dilacerado e vertendo sangue. Não posso deixar que ele se vá dessa forma. Nós passamos por muita coisa juntos, para nos transformarmos em estranhos. Uma despedida entre nós deveria ser mais do que uma reverência gentil. Quando ele chega à porta, eu fico de pé e corro até ele.
- Day, espera!
Ele gira o corpo. Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, ele dá um passo à frente e segura meu rosto com as duas mãos. Day começa a me beijar pela última vez, dominando-me com seu calor, me enchendo de vida, de amor e de um pesar doloroso. Atiro meus braços em volta do seu pescoço. Ele envolve minha cintura com os dele.
Meus lábios se abrem para ele e sua boca comprime desesperadamente a minha, devorando-me e sugando todo o meu fôlego. Não vá, imploro em silêncio, mas sinto o adeus nos seus lábios, e agora já não consigo conter as lágrimas. Ele está tremendo. Seu rosto está úmido. Eu me agarro a ele com medo de que desapareça, com medo de ficar sozinha nessa sala escura, de pé no vazio. Anden pode ser o homem mais poderoso da República, mas Day, o garoto das ruas que não tem nada além da roupa do corpo e da seriedade no olhar, é o dono do meu coração.
Ele é tudo o que é belo.
Ele é o raio de esperança em um mundo de escuridão.
Ele é a minha luz.

Comentários

  1. Chorei >.< Day e June são tao pft. Nao to crendo que Day vai morrer.

    ResponderExcluir
  2. Aí meu coração :'(
    Próximo por favor, URGENTE!!;)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Nada de spoilers! :)

Postagens mais visitadas deste blog

Trono de Vidro

Os Instrumentos Mortais

Trono de Vidro