Capítulo 6 - Day
Os
patriotas tratam primeiro de cuidar do meu disfarce.
Kaede
corta meu cabelo até um pouco acima dos ombros, depois tinge de
castanhado-escuro avermelhado os fios brancos como trigo. Usa uma espécie de
spray para fazer isso, algo que pode ser removido com um produto especial,
quando eu quiser. Razor me dá um par de lentes de contato castanhas que
escondem completamente o azul-claro dos meus olhos. Somente eu posso distinguir
que são artificiais; consigo perceber os minúsculos pontinhos roxos profundos
das minhas íris. Essas lentes são um acessório de luxo — os ricos as usam para
mudar a cor dos olhos, por puro divertimento.Elas teriam sido úteis nas ruas, se
tivesse tido acesso a elas. Kaede acrescenta uma cicatriz sintética ao meu
rosto, depois termina meu disfarce com um uniforme de cadete do primeiro ano da
aeronáutica, que consiste em um traje todo negro, com faixas vermelhas em cada
uma das pernas da calça.
Finalmente,
ela me equipa com um diminuto fone de ouvido e um microfone da cor da pele; o
primeiro inserido discretamente na minha orelha, e o segundo, grudado na parte
de dentro da minha bochecha.
Razor
veste um uniforme de oficial da República, feito sob encomenda. Kaede usa um
traje impecável de voo: um macacão preto com galões de asas prateadas em ambas
as mangas, luvas brancas de combate combinando, e óculos de aviação. Não é à
toa que ela é piloto dos Patriotas; de acordo com Razor, Kaede consegue fazer
uma manobra Split-S no ar melhor do que qualquer pessoa que ele já viu. Kaede
não deve ter dificuldade em se passar por um piloto de avião de caça da
República.
Tess
já havia saído, levada há meia hora por um soldado que Razor disse ser mais um
Patriota. Tess é muito nova para ser um soldado de qualquer nível, sendo assim,
o único modo de colocá-la dentro do RS Dynasty era vesti-la num traje simples
de camisa social e calças castanhas, o uniforme dos trabalhadores que operam as
centenas de fogareiros do dirigível.
Só
restava, é claro, a June.
June
observa calmamente minha transformação sentada no sofá. Ela não falou muito
desde nossa última conversa na cama em que me recuperava. Enquanto o resto de
nós usa diferentes trajes, June não sofreu nenhuma transformação: está sem
maquiagem, os olhos continuam negros e penetrantes, o cabelo puxado para trás,
naquele rabo de cavalo lustroso. Ela veste o uniforme simples de cadete que
Razor nos entregou ontem à noite. Na verdade, June não parece nada diferente da
foto da sua identidade militar.
Ela
é a única de nós que não está equipada com microfone e fone de ouvido, por
razões óbvias. Faço várias tentativas de cruzar meu olhar com o dela, enquanto
Kaede trata da minha aparência.
Menos
de uma hora depois, percorremos a Strip de Vegas, no jipe de Razor. Passamos
por várias das primeiras pirâmides, Alexandria, Luxor, Cairo, o Sphinx. Todos
estes HOTÉIS receberam seus nomes em homenagem a
uma antiga civilização pré-República ou, pelo menos, foi isso que me ensinaram,
durante os poucos anos em que a República permitiu que eu freqüentasse o
colégio. Elas são bem diferentes durante o dia, com seus raios reluzentes e as
bordas apagadas, avultando como gigantescas sepulturas negras no meio do
deserto. Soldados entram e saem apressados. É bom ver tanta atividade, assim
fica mais fácil para nos misturarmos ao povo.
Reexamino
nossos uniformes, aprumados e autênticos. Não consigo me acostumar a ele,
embora June e eu estejamos fingindo ser soldados há semanas. A gola me arranha
o pescoço, e as mangas são engomadas demais. Não entendo como June aguentava
usar este troço o tempo todo. Será que ela gostou de como eu fiquei nesta
roupa? Nela, meus ombros parecem até um pouco mais largos.
—
Pare de ficar mexendo no seu uniforme — June sussurra para mim ao me ver
futucar as beiras da minha jaqueta militar. — Você está bagunçando o
alinhamento dele.
Isso
é o máximo que a ouvi falar em uma hora.
—
Você está tão nervosa quanto eu.
June
hesita, e se vira. Sua mandíbula está cerrada, parece lutar contra a vontade de
dizer algo intempestivo.
—
Só estava tentando ajudar.
Depois
de um tempinho, estendo o braço e aperto a mão dela. Ela retribui.
Finalmente,
chegamos ao Pharaoh, a plataforma de aterrissagem onde o RS Dynasty está
pousado. Razor nos faz descer rapidamente, e depois nos manda ficar em posição
de sentido. Apenas June não permanece na fila; ela para ao lado de Razor e olha
para um lado da rua. Eu a observo discretamente.
Um
minuto depois, outro soldado surge da multidão e acena com a cabeça para Razor,
em seguida para June, que endireita os ombros, põe-se ao lado do soldado e
desaparece em meio à multidão na rua. Simplesmente some. Exalo o ar
pesadamente, me sentindo vazio com sua ausência.
Só
voltarei a vê-la quando tudo estiver acabado. Se tudo der certo.
Não seja pessimista: vai dar tudo certo.
Nós
nos dirigimos para dentro, com as levas de outros soldados entrando e saindo do
Pharaoh. O interior é enorme; além da entrada principal, o teto se estende em
toda a extensão até o topo da pirâmide, e termina com a base da RS Dynasty,
onde vejo minúsculos vultos embarcando em meio a um labirinto de rampas e
passadiços. Fileiras de portas de barracas militares estão alinhadas em cada um
dos níveis das laterais das pirâmides. Longos painéis de texto, afixados em
todas as paredes, anunciam uma torrente ininterrupta de horários de partidas e
chegadas. Elevadores diagonais ocupam as quatro principais bordas da pirâmide.
Neste
ponto, Razor nos deixa para trás. Num minuto ele está andando à frente; noutro,
ele vai abrindo caminho na multidão, e se mistura ao mar de uniformes. Kaede
continua a andar sem hesitação, mas devagar o bastante para ficarmos lado a
lado. Mal consigo ver seus lábios se moverem, mas sua voz ecoa claramente no
meu fone de ouvido.
—
Razor vai embarcar no Dynasty com os outros oficiais, mas não podemos entrar
com os soldados, senão vamos ser identificados. Por isso, entrar
sorrateiramente é nossa melhor opção.
Meus
olhos focalizam a base do dirigível, examinando superficialmente os cantos e
esconderijos nas laterais. Lembro quando invadi um dirigível retido no chão e
roubei duas sacolas de enlatados. Lembro também da ocasião em que afundei um
dirigível menor no lago de Los Angeles, ao alagar os motores. Nos dois casos,
havia um jeito fácil de entrar sem ser percebido.
—
As calhas de escoamento de lixo — murmuro ao microfone.
Kaede
me dá um rápido sorriso de aprovação.
—
É isso aí! Falou como um verdadeiro corredor.
Abrimos
caminho entre o povo até chegarmos a um terminal de elevador num dos cantos da
pirâmide, onde nos misturamos com um pequeno grupo reunido em frente à porta do
elevador. Kaede desliga seu microfone para conversar comigo, e tomo o cuidado
de não fazer contato visual com nenhum dos soldados. Muitos deles são mais
jovens do que eu havia imaginado, têm quase minha idade, e vários já apresentam
lesões permanentes: membros de metal como o meu, a falta de uma orelha, uma das
mãos coberta com cicatrizes de queimaduras... Volto a olhar para o Dynasty,
desta vez demorando o suficiente para reparar em todas as calhas de escoamento
de lixo abertas no lado da carcaça do dirigível. Se vamos entrar sem ser
vistos, vamos precisar fazer isso rapidamente.
O
elevador chega logo. Percorremos a extensão vertical nauseante até o lado
diagonal da pirâmide, depois esperamos no topo enquanto as outras pessoas se
enfileiram para sair. Saímos por último. Quando os demais se espalham para um
dos lados do hall do topo que leva às rampas de entrada do dirigível, Kaede se
vira para mim.
—
Falta mais um lance para nós. — Ela faz um sinal com a cabeça para um conjunto
de degraus mais estreitos no fim do hall, que conduzem ao interior do topo da
pirâmide. Analiso os degraus em silêncio. Ela está certa.
Os
degraus vão direto até em cima — provavelmente até o telhado — e em toda a
extensão do teto há labirintos de andaimes de metal e vigas de apoio
entrecruzadas. Daqui, a parte traseira do dirigível ancorado projeta uma sombra
que se estende pelo teto e deixa essa parte dele na escuridão. Se conseguirmos
saltar do meio desse último lance de escada e subir até aquela confusão de
vigas de metal, podemos chegar ao dirigível sem ser percebidos, ocultados pelas
sombras, e escalar o lado escuro da carcaça. Além disso, os respiradouros de ar
são barulhentos a essa distância. Isso, junto com os ruídos e o alvoroço da
base, deve encobrir quaisquer sons que façamos.
Espero
que minha nova perna aguente o tranco. Piso duramente com ela duas vezes, a fim
de testá-la. Não dói, mas há uma pequena pressão onde minha carne se encontra
com o metal, como se ainda não estivesse completamente fundida. Ainda assim,
não posso deixar de sorrir.
—
Isso vai ser muito divertido — digo em voz alta.
Sinto
que estou quase de volta ao meu elemento, pelo menos por um instante, voltando
ao que sei fazer melhor.
Caminhamos
até os degraus nas sombras, e então cada um de nós dá um pequeno salto até os
andaimes, e sobe nas vigas. Kaede vai primeiro. Tem certa dificuldade com o
braço engessado, mas consegue agarrar-se firmemente após se embaralhar um
pouco. E então chegou minha vez. Giro facilmente até as vigas e lanço meu corpo
sinuosamente até as sombras. Até aqui, a perna não me incomodou. Kaede me
observa, com aprovação.
—
Estou me sentindo no céu — sussurro.
—
Dá pra notar.
Percorremos
o local em silêncio. O medalhão escorrega para fora da minha camisa algumas
vezes e preciso metê-lo para dentro de novo. De vez em quando olho para baixo
ou em direção ao dirigível; o piso da base de aterrissagem está lotado de
cadetes de todos os níveis hierárquicos, e agora que a maioria dos tripulantes
anteriores do Dynasty saiu do veículo, os novos tripulantes começam a formar
compridas filas nas rampas de entrada. Observo cada um deles passar por uma
breve inspeção, verificação de identidade e um scanner corporal. À distância,
muito acima de nós, mais cadetes estão se acumulando perto das portas dos
elevadores.
Paro
de repente.
—
Qual é o problema? — pergunta Kaede apreensiva.
Levanto
um dedo, para que se cale. Meus olhos estão concentrados no chão, fixos num
vulto familiar que está abrindo caminho na multidão.
Thomas.
Esse
sujeito nos rastreou de Los Angeles até aqui. Ele para de vez em quando para
fazer perguntas a soldados aleatórios. Com ele está um cachorro tão branco, que
sobressai como um raio, de onde estamos. Eu esfrego os olhos para me certificar
de que não estou tendo alucinações.
Não
estou. Ele ainda está lá. Continua a abrir caminho sinuosamente na multidão;
tem uma das mãos sobre a arma na cintura, a outra segura a guia do enorme
pastor branco. Uma pequena fila de soldados o segue. Por um instante, meus
membros se paralisam. Tudo que vejo é Thomas apontando um revólver pra minha
mãe, e me enxendo de porrada na sala de interrogatório de Batalla Hall. Minha
visão pinta tudo de vermelho.
Kaede
percebe o que está atraindo minha atenção, e também olha para o andar térreo.
—
Ele está procurando a June. Continue andando.
A
voz dela me faz sair do transe. Começo a andar agachado de novo, embora meu
corpo todo esteja tremendo.
—
A June? — sussurro de volta. Uma onda de raiva me invade. — Vocês puseram logo
esse cara para prender a June?
—
Foi por um bom motivo.
—
Ah, é? Qual?
Kaede
suspira impaciente:
—
Thomas não vai machucar a June.
Digo
a mim mesmo: Fica calmo, fica calmo, fica calmo, e me
obrigo a continuar.
Não
tenho escolha: preciso confiar em Kaede. Olha pra frente, foco. Minhas
mãos tremem e me esforço para firmá-las, para conter meu ódio. A idéia de
Thomas encostando um dedo sequer na June é demais para mim. Se eu me concentrar
nisso agora, não vou conseguir fazer mais nada.
Fica calmo.
Abaixo
de nós, a patrulha de Thomas continua a abrir caminho na multidão. Devagar, ele
se dirige para os elevadores.
Chegamos
à carcaça do dirigível. Daqui, posso ver a fila de soldados esperando para
entrar pelas rampas. Então, escuto o primeiro latido do pastor branco. Thomas e
seus soldados estão reunidos num dos terminais dos elevadores. O mesmo pelo
qual entramos. O cão está latindo sem parar; seu focinho aponta para a porta do
elevador, e ele abana a cauda.
Olha pra frente, foco.
Volto
a olhar de relance para o andar térreo. Thomas está com uma das mãos
comprimindo o que deve ser seu fone de ouvido. Ele fica lá um instante, como se
estivesse se esforçando para compreender alguma coisa que está ouvindo. Então,
de súbito, grita com seus homens e eles começam a se afastar dos elevadores, e
voltam a se misturar à multidão de soldados.
Devem
ter encontrado June.
Abrimos
caminho pelas sombras do teto da pirâmide, até estarmos empoleirados perto o
suficiente do lado escuro da carcaça do dirigível. Ele está a uns quatro metros
de distância de nós. Uma única escada metálica se estende verticalmente até o
topo da plataforma de aterrissagem do dirigível.
Kaede
se equilibra nas vigas de metal, e se vira para mim.
—
Vai na minha frente. Tu é bom nisso.
Chegou
a hora. Kaede se afasta o bastante para eu conseguir um bom ângulo no
dirigível. Fico em posição, torço para que minha perna continue intacta, e dou
um salto gigantesco. Meu corpo bate nas barras da escada com um barulho
abafado, e cerro os dentes para não gritar. A dor castiga minha perna operada.
Espero alguns segundos para que diminua, antes de recomeçar a subida. Agora já
não consigo mais ver a patrulha, o que quer dizer — assim espero — que eles
também não podem nos ver. Atrás de mim, escuto Kaede pular e atingir a escada a
alguns metros abaixo de onde estou.
Finalmente,
chego à abertura do condutor de lixo. Lanço-me da escada; minhas mãos pegam a
lateral do condutor e meus braços jogam meu corpo dentro da escuridão. Sinto
mais um solavanco de dor, mas a perna continua a pulsar com uma energia
recém-descoberta, forte pela primeira vez em muito tempo. Tiro a poeira das
mãos e me levanto. A primeira coisa em que reparo dentro da calha é o ar frio.
O interior do dirigível deve ser mantido resfriado para a decolagem.
Momentos
depois, Kaede também chega. Ela estremece, esfrega o gesso do braço ainda
lesionado, depois me dá um empurrão irritado.
—
Onde tu tava com a cabeça pra parar no meio de uma escalada? A gente não pode
dar mole e deixar tua cabeça quente falar mais alto.
—
Então não me dê motivo para minha cabeça ficar quente — retruco. — Por que você
não me contou que o Thomas viria atrás de June?
—
Sei bem o que esse capitão te fez — ela diz, ao espreitar a escuridão, e
gesticular pra gente escalar outro duto do condutor de lixo. — Razor achou que
não te faria bem se preocupar com isso antes da hora.
Estou
pronto pra retrucar, mas Kaede lança um olhar de advertência na minha direção.
Faço um esforço pra engolir a raiva. Lembro por que estou aqui: é pelo Éden. Se
Razor acredita que June estará segura sob a vigilância do Thomas, que seja
assim. Mas o que vão fazer com June quando a pegarem?
E
se alguma coisa der errado e o Congresso ou os tribunais fizerem uma coisa que
Razor não tenha planejado? Como é que ele pode ter tanta certeza de que tudo
vai sair bem?
Kaede
e eu subimos a escada até chegarmos aos níveis inferiores do Dynasty. Nos
escondemos atrás de uma escada num compartimento de máquinas nos fundos da
aeronave até a decolagem, quando os êmbolos de vapor ganharam vida, e sentimos
a pressão do dirigível subindo debaixo dos nossos pés. Escuto cabos gigantescos
se soltando e o barulho dos aplausos da tripulação de terra, saudando mais uma
decolagem bem-sucedida.
Depois
de mais de meia hora, quando minha raiva finalmente diminuiu, saímos de nosso
esconderijo.
—
Vamos por aqui — Kaede sussurra ao chegarmos em um cômodo minúsculo com duas
trilhas: uma que leva aos motores, e outra que conduz direto aos deques acima. —
As vezes eles fazem inspeções nas entradas do deque superior. A gente deve ter
menos problema ficando aqui em baixo.
Ela
faz uma pausa, comprime uma das mãos no ouvido, concentrada.
—
Que foi?
—
Parece que Razor chegou.
Minha
perna está meio dolorida quando ando, e vejo que estou mancando um pouquinho.
Subimos mais uma escada que leva às casas de máquinas e nos deparamos com uns
soldados no caminho, até chegarmos a um piso marcado "6", onde acabam
os degraus. Perambulamos por este local por algum tempo, antes de pararmos numa
porta estreita. Um cartaz avisa:
"CASAS
DE MÁQUINAS A, B, C e D."
Apenas
um guarda vigia a entrada. Ele nos olha de relance, endireita a postura relaxada
e resmunga:
—
O que vocês querem?
Nós
o cumprimentamos informalmente.
—
Nós fomos mandados aqui para falar com uma pessoa — ela mente. — Um operador da
casa de máquinas.
—
Ah, é? Quem? — Ele estreita os olhos para Kaede. — Você é piloto, não é?
Deveria estar no deque superior. Está havendo uma inspeção.
Kaede
ia protestar, mas eu a interrompo e faço uma expressão envergonhada. Digo a
única coisa em que consegui pensar, que ele não vai questionar:
—
Posso falar? De soldado para soldado? — murmuro para o guarda, lançando um
olhar furtivo para Kaede. — A gente... Bem, a gente está procurando um lugar
legal para... Você sabe... Nós achamos que as casas de máquinas eram uma boa. —
Dou uma piscada justificativa para ele. — Faz semanas que estou tentando ficar
com esta gata. Uma cirurgia no joelho atrapalhou tudo.
Fico
quieto e faço um showzinho para ele, mancando exageradamente. De repente, o
guarda sorri amplamente e solta uma gargalhada surpresa, como se estivesse
gostando de participar de uma contravenção.
—
Ah, já entendi — ele diz, olhando de relance e de modo solidário para minha
perna. — Ela é linda mesmo.
Rio
junto com ele, e então Kaede entra no jogo e revira os
olhos.
—
É como você falou — Kaede diz ao guarda quando ele destrava a porta para nós. —
Estou atrasada para as inspeções. A gente vai dar só uma rapidinha, e em alguns
minutos vamos para o deque superior.
—
Boa sorte, seus malucos! — ele grita para nós, enquanto nos afastamos.
Retribuímos
com uma leve saudação .
—
Tinha bolado uma história boa pra contar, mas a tua também foi bem maneira. Foi
você mesmo que inventou aquilo? — Kaede sorri maliciosamente e me examina dos
pés á cabeça. — É tão desagradável estar presa a um parceiro tão feio como
você.
Ergo
as mãos, simulando uma defesa.
—
E eu acho horrível estar preso a uma guria tão mentirosa.
Percorremos
um corredor cilíndrico banhado por uma suave luz vermelha. Mesmo aqui embaixo,
telas planas transmitem uma seqüência de notícias e atualizações sobre
aeronaves. Elas mostram uma lista dos locais para onde se dirigem todos os
dirigíveis a serviço da República, juntamente com datas e horários. Parece que
doze deles estão no ar neste momento. Ao passarmos por uma das telas, meus
olhos examinam superficialmente uma notícia sobre o RS Dynasty:
DIRIGÍVEL
DYNASTY DA REPÚBLICA:
PARTIDA:
08H51 HORÁRIO PADRÃO DA COSTA OESTE
13.01,
LAS VEGAS, NV
CHEGADA:
17H04 HORÁRIO PADRÃO DA COSTA OESTE
13.01,
BLACHWELL
Lamar.
Estamos indo para uma cidade na zona de combate no Norte.
A um passo mais perto de Éden, repito mentalmente. June vai ficar bem. Esta missão
uai acabar logo.
A
primeira casa de máquinas é enorme: fileiras e mais fileiras de caldeiras e
respiradouros sibilantes, com dúzias de operários tratando de cada um deles.
Alguns estão verificando as temperaturas, e outros, colocando nas fornalhas
algo que parece carvão branco. Todos com traje idêntico ao de Tess. Nós nos
apressamos em uma das fileiras de caldeiras até alcançarmos a próxima porta.
Mais um vão de escada, e aí surgimos no deque inferior do Dynasty.
Este
dirigível é enorme. Já estive em outros antes — cansei de roubar comida de
cargas de dirigíveis, e destruí os motores de vários. Aos treze anos, invadi a
pista de aterrissagem do RS Pacifica, roubei combustível de três jatos de
combate F-170, e depois o vendi por bom preço no mercado negro. Nunca, no
entanto, entrei num desse tamanho...
Kaede
me leva até um passadiço de metal onde dá para ver os andares acima de nós. Há
soldados em todos os lugares. Caminhamos entre eles, tomando muito cuidado para
manter nosso rosto totalmente inexpressivo.
Aqui
no deque inferior, várias formações de tropas estão empenhadas em diferentes
exercícios. Existem portas na extensão dos corredores, e a cada quatro portas
há uma tela plana transmitindo notícias. O retrato do novo Eleitor está
pendurado acima de todas as telas. É impressionante como esses caras trabalham
rápido!
A
sala de Razor é uma entre meia dúzia de outras localizadas no quarto deque, com
um emblema prateado da República embutido na porta. Kaede bate duas vezes.
Quando ouve a voz de Razor nos mandando entrar, ela abre a porta e gesticula
para que eu a siga. Ela fecha a porta cuidadosamente e bate continência. Eu
sigo a deixa. Nossas botas ecoam no chão de madeira de lei.
Algo
na sala tem um suave odor dejasmim, e enquanto reparo nas decorativas lâmpadas
esféricas nas paredes, e no retrato do Eleitor na parede dos fundos, me dou
conta do frio que faz na sala. Razor está de pé ao lado da mesa com as mãos
atrás das costas, elegante em seu uniforme de gala de comandante, conversando
com uma mulher vestindo trajes semelhantes.
Demoro
um instante para me dar conta de que a mulher é a Comandante Jameson.
Kaede
e eu ficamos paralisados. Depois do choque de ver Thomas, eu havia suposto que,
se a Comandante Jameson estivesse em algum lugar em Vegas, esse lugar seria a
pista de aterrissagem da pirâmide, supervisionando o desempenho de seu capitão.
Nunca imaginei que ela estivesse no dirigível.
Por
que está indo para a área de combate?
Razor
acena em nossa direção quando Kaede e eu o cumprimentamos.
—
Descansar! — ele nos ordena, e depois volta a dirigir sua atenção à Comandante
Jameson. Consigo sentir a tensão de Kaede a meu lado. Meus instintos, apurados
pela vida nas ruas, voltam todos a funcionar ao mesmo tempo.
Se
Kaede está ansiosa, é porque os Patriotas não haviam considerado a
possibilidade da visita da Comandante Jameson ao local. Meus olhos se dirigem
rapidamente para a fechadura da porta; eu me imagino girando o corpo, abrindo a
porta de repente e me pendurando no parapeito da sacada que dava para o deque
abaixo. O interior do dirigível surge na minha mente como um mapa
tridimensional. Preciso estar pronto para fugir rápido se ela me reconhecer.
Minha rota de fuga precisa estar planejada.
—
Fui aconselhada a manter meus olhos abertos — retoma a conversa a Comandante
Jameson.
Razor
parece completamente despreocupado. Os ombros dele estão relaxados, e ele exibe
um sorriso tranqüilo.
—
Você também deve ficar alerta, DeSoto. Se notar qualquer coisa estranha, venha
falar comigo. Eu saberei o que fazer.
—
Claro. Pode ter certeza de que farei exatamente isso — Razor inclina a cabeça
respeitosamente para a Comandante Jameson, embora as insígnias do seu uniforme
indiquem que seu posto é superior ao dela. — Meus melhores votos para a
senhora, e para Los Angeles.
Eles
se cumprimentam informalmente, e a Comandante Jameson começa a dirigir-se para
a porta. Eu me obrigo a permanecer imóvel, mas todos os músculos do meu corpo
gritam para eu fugir.
A
Comandante Jameson passa por mim, e espero calmamente enquanto ela me examina
dos pés à cabeça. Pelo canto dos olhos, vejo as rugas de reprovação em seu
rosto, e os lábios finos e vermelhos. Debaixo de sua expressão há um gélido
nada, uma impressionante falta de emoção, que ao mesmo tempo provoca medo e
ódio no meu sangue. Reparo então que uma de suas mãos está enfaixada. Ainda é o
ferimento do período em que ela me manteve prisioneiro em Batalla Hall, quando
lhe mordi a mão com tanta força que quase cheguei no osso.
Ela sabe quem sou eu.
Gotas
de suor escorrem pelas minhas costas. Ela deve saber. Mesmo com o breve olhar
que me deu, ela conseguiu me reconhecer debaixo do meu disfarce, do cabelo
escuro avermelhado cortado rente, da cicatriz sintética e das lentes de contato
castanhas. Fico esperando que ela dê o sinal. Minhas botas se inclinam
levemente do chão, prontas para correr. Minha perna operada está latejando.
Mas
a fração de segundo passa, e o olhar intenso da Comandante Jameson procura
outro alvo quando ela chega à porta. Recuo da beira do abismo.
—
Seu uniforme está amassado, soldado — ela se dirige a mim com desgosto. — Se eu
fosse o Comandante DeSoto, eu o puniria severamente.
Ela
se afasta, sai pela porta e desaparece.
Kaede
tranca a porta.
Ela
relaxa os ombros e solta o ar demoradamente, depois do que parece uma eternidade
prendendo a respiração.
—
Adorei — ela diz para Razor, ao se jogar no sofá do escritório. Sua voz derrama
sarcasmo.
Razor
faz um gesto para que eu também me sente e diz:
—
Temos de lhe agradecer, Kaede, pelo excelente disfarce do nosso jovem amigo.
Kaede
dá um largo sorriso por conta do elogio.
—
Peço desculpas pela desagradável surpresa. A Comandante Jameson tomou
conhecimento da prisão de June e quis vir até aqui para ver se conseguia apurar
mais alguma coisa. — Ele se senta atrás da mesa. — Ela vai tomar um avião de
volta a Vegas agora.
Sinto
meu corpo enfraquecido. Enquanto descanso no sofá ao lado de Kaede, não posso
evitar manter os olhos nas janelas, caso a Comandante Jameson resolva voltar
por algum motivo.
As
janelas são de vidro fosco. Será que alguém olhando lá debaixo consegue nos ver
aqui?
Kaede
já se acalmou novamente, e fala sem parar com Razor sobre nossas próximas
providências: a que horas vamos aterrissar, quando vamos nos reunir em Lamar,
se os soldados da capital que servirão de isca já estão prontos.
Eu,
por outro lado, apenas continuo sentado e penso na expressão da Comandante
Jameson. De todos os oficiais da República com que já me deparei, exceto talvez
Chian, só os olhos da Comandante Jameson conseguem me paralisar até o último fio
de cabelo.
Tento
repelir a lembrança de como ela sequer piscou ao ordenar a morte da minha mãe e
a execução de John. Se Thomas prendeu June, o que a Comandante Jameson fará com
ela? Será que Razor vai conseguir realmente manter a June protegida?
Fecho
os olhos e me esforço para mandar um pensamento positivo para June.
Tome cuidado. Quero estar com você de novo
quando tudo isso terminar.
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