Capítulo 3 - Por que o conde Olaf tem um olho tatuado no tornozelo?



O que segue é a transcrição da reunião do Comitê de Construção de (rabisco) em (rabisco) de abril. Presentes J, L, M, R, R, M, L, K, D, S e EU. Nota: os nomes dos presentes são representados pela primeira letra do primeiro nome, com exceção de EU, que, além de não ser primeira letra, é um pronome. Algumas das pessoas presentes tinham a mesma primeira letra do nome, o que torna esta transcrição algo difícil de acompanhar, mas não importa: O Código de C.S.C. determina que esta ata não deve ser lida por ninguém que não tenha comparecido à reunião.

(som de martelo de juiz batendo)

M: Considere-se aberta a sessão. O secretário está pronto para transcrever a ata?
J: Estou.
M: Comecemos pela chamada. O vice-reitor quer fazer a gentileza de ler a lista do comitê para verificar a presença de todos?
R: Quero. Por favor respondam quando eu chamar os nomes.
J?
J: Presente.
R: J?
J: Presente.
R: M?
M: Presente.
R: M?
M: Presente.
R: K?
K: Presente.
R: K?
K: Eu já disse "presente".
R: Desculpe, não pude ouvi-lo. D?
D: Presente.
M: D, você está aqui como representante de L ou como agente independente?
L: Eu estou aqui, portanto não existe razão para D me representar.
R: Desculpe, eu não o tinha visto, L?
L: Presente.
R: L? Oh, acabei de falar com você, desculpe. S?
S: Presente.
R: R?
R: Presente.
R: E R, bom, R sou eu. Todos estão presentes, M.
M: Muito bem. Vamos começar recitando o mote.
J, L, M, R, R, M, L, K, D, S, J: Aqui o mundo é sereno.
M: Muito bem. Agora, antes que passemos ao problema que temos em mãos, tenho alguns comunicados a fazer, Hoje à noite, às sete horas, nos encontraremos no saguão do edifício, a duas portas deste aqui, e de lá seguiremos para a sessão das sete e meia de Lobisomem na chuva, dirigido pelo Dr. Sebald, a fim de receber sua mensagem em código. Amanhã de manhã, às nove horas em ponto, se dará o exame mensal para os neófitos R,L, K, B, J, E e G, portanto nossa sessão de cartografia será transferida do salão de exames para o jardim de esculturas...
R: ...que, aliás, é muito mais bonito.
M: Bem, sim. O que nos traz o problema urgente que temos em mãos.
L: Qual o problema com nossas mãos?
M: Não, não foi isso que M quis dizer, L. "Nas mãos" é uma expressão que aqui significa "o problema que nos reunimos para discutir". Quando você ficar mais velho, essas expressões serão mais fáceis de entender .
J: Por favor, passe o licor.
M: Por favor continue, M,
M: Obrigado. Receio que tenhamos de mudar a nossa sede de operações mais uma vez.
R: Não!
D: Não pode ser! Não agora!
M: Receio que já seja tarde demais.
D: Nossos espiões n’O Pundonor Diário nos contam que G pode estar publicando o nosso endereço na coluna dela, “Organizações secretas que você precisa conhecer”.
J: Mas ninguém deveria conhecer nossa organização!
M: Isso é precisamente o que M queria dizer. Precisamos mudar de lugar mais uma vez.
R: Isso já está ficando absurdo.
R: Concordo. Tenho nove anos de idade, mas o que me preocupa é que esse tipo de mudança brusca venha a afetar nossos membros mais jovens.
R: R tem razão. Estamos entrando nas casas das pessoas...
J: Pedimos permissão primeiro.
L: Deixe-a terminar.
R: Já vou terminar. Estamos entrando nas casas das pessoas, pegando crianças pequenas que demonstram excepcionais talentos para observação e/ou anotações, e as isolamos por longos períodos de tempo das pessoas que elas conhecem. São entregues a estranhos e espalhadas por todo o globo terrestre, cumprindo missões que as deixam perplexas, até que seus tornozelos tenham sarado, até que saibamos que é possível confiar nelas, e até que saibamos que ninguém mais procura por elas. Então, finalmente, nós as trazemos para a sede de operações e ensinamos a elas as habilidades necessárias à reinserção na sociedade, a fim de garantir que o mundo continue, como dizemos, sereno.
K: E extinto.
R: Mas, se causamos mais rompimentos no processo de treinamento, nos arriscamos a confundir nossos neófitos ainda mais. Amanhã de manhã, por exemplo, acontecem nossos exames mensais. Se esses jovens ficarem acordados a noite inteira, ajudando-nos a mudar de lugar todos os romances, sacos de dormir, garrafas de cristal, câmeras, arquivos, kits de disfarces, mapas, moedores de café, cópias heliográficas, livros de códigos, varas de pescar, agendas, cardápios falsos, pastas, saca-rolhas, guias de pássaros, material de escritório, aquários com peixinhos dourados, mapas falsos, mangueiras de jardim, lentes de aumento, instrumentos musicais, redes, cabos elétricos, jóias, caixas de ferramentas, espectroscópios, projetores, ração para animais, casacos pesados de inverno, baralhos, cortinas, Colheres de caviar, gazuas, cordas, mesas e divãs dobráveis, dicionários e atlas, gaiolas, hashi, bicicletas, arpéus, equipamento de iatismo, latarias, tanques de armazenamento, falsos cadernos de endereços, falsas cópias heliográficas, dispositivos telegráficos, fumaça enlatada, fachadas de edifícios, falsos moedores de café, kits de disfarces...
J: Você já disse "kits de disfarces".
R: Se eles ficarem acordados a noite inteira levando todo esse material para uma nova sede de operações — presumindo que possamos encontrar uma —, como você acha que vão se sair nos exames? Como sabemos pelo relatório de S sobre a Escola Preparatória Prufrock, se pessoas jovens não dormem o suficiente, é provável que o seu rendimento sofra com isso. Alguém poderia, por exemplo, esquecer informações cruciais quanto à localização exata dos automóveis que usamos para armazenar arquivos necessários e levar mensagens, ou poderiam esquecer o Código Sebald e pensar que havia oito palavras não codificadas separando cada palavra codificada, em vez de dez. O segredo do açucareiro poderia passar totalmente despercebido por suas mentes. Isso poderia levar a graves mal-entendidos durante a comunicação codificada, e não podemos nos permitir isso.
M: E nem podemos nos permitir ser descobertos. Se a nossa localização for revelada n'O Pundonor Diário, o edifício provavelmente será destruído até o final da semana.
J: Mas como aquela repórter horrorosa descobriu nossa localização? Nós paramos de gravar nossa insígnia do lado de fora dos edifícios faz muito, muito tempo, e há um bom tempo não usamos mais madeira como material de construção.
M: Não temos tempo para descobrir como fomos descobertos.
J: Pelo contrário, M. Está mais que na hora de descobrir como a repórter nos encontrou. É chegado o momento de dizermos aqui, em um encontro oficial, o que todos estamos dizendo discretamente uns aos outros já faz um bom tempo; um inimigo se infiltrou em nossas fileiras.
K: Infiltrou?
J: "Infiltrou" é uma palavra que aqui significa "entrou sorrateiramente, sem que percebêssemos".
K: Eu sei o que significa a palavra. Quando eu disse "infiltrou?" queria dizer:"Você acha mesmo? Não pode ser".
R: K tem razão.
R: Não, quem tem razão é J,
R: K.
R: J.
R: K.
R: J.
R: Kl
R: J!
M: Chega! Podemos discutir isso em outra ocasião.
J: Desculpe, M, mas nós devíamos discutir isso agora. Desde que ingressei na organização, já fomos forçados a trocar de sede de operações sete vezes. Encontrei vocês todos pela primeira vez — com exceção de L, é claro — na rua Columbia 1485, sede que tivemos de abandonar quase imediatamente, para migrar para aquele edifício de tijolos com as sebes malcuidadas. Dois meses depois avistamos alguém que tirava fotografias enquanto um de nossos agentes e duas pessoas muito estranhas caminhavam do lado de fora, portanto tivemos de mudar tudo para aquele outro edifício, com as duas torres redondas, em uma vizinhança tão nevoenta que todos os nossos girassóis morreram, e tivemos de interromper aquele experimento específico. Então M nos acordou no meio da tarde a fim de abandonar o edifício nevoento e ir para uma nova sede de operações escondida na agência do correio de Versailles, de onde fugimos para a agência rival um ano depois. Daí em diante decidimos partir para as atividades subterrâneas, a começar pela rede de túneis que tivemos de escavar embaixo daquele poste de iluminação, mas nossos espiões n'O Pundonor Diário nos aconselharam a escavar uma nova sede de operações, embaixo do "barracão abandonado" na região da Floresta Finita. Quem sabe quanta informação e quantos equipamentos perdemos, encaixotando e desencaixotando tantas vezes? Quem sabe quanto tempo precioso se foi para sempre? Só Existe uma explicação para nossa localização secreta ter sido descoberta tantas vezes seguidas: um membro de C.S.C. — talvez até alguém presente nesta sala — nos traiu.
E: (risos)
O: Sem dúvida, senhoras e senhores, talvez alguém aqui nesta sala os tenha traido!
M: O!
K: E também E! Nenhum de vocês estava lá atrás do teatro de fantoches.
M: E O, nenhum de vocês é bem-vindo nesta reunião.
O: Na verdade, prefiro ser chamado de T,
M: Não vamos chamá-lo de coisa nenhuma. Por favor, saiam agora.
E: Nós não vamos a lugar algum, seus tolos.
O: Dêem uma olhada nisso!
(gritos sufocados de um bocado de gente)
L: Oh, Deus!
M: Ponha isso de volta na caixa imediatamente!
O: Mão antes de comunicar as seguintes exigências: Conforme instruções, esta transcrição será guardada em duas metades separadas A primeira metade termina aqui, e permanecerá em meu dossiê, juntamente com as fotografias que a acompanham e um relato sobre um possível neófito. A segunda metade será escondida entre as páginas 302 e 303 de um exemplar de Ivan Lacrimoso: O Explorador do Lago, uma biografia tão tediosa que é improvável que alguém venha a ler. Esse livro estará escondido embaixo da cama de alguém.





Caro J,
Anexas a esta estão algumas fotografias do neófito que mencionamos antes. Está ficando cada vez mais difícil se esconder em playgrounds hoje em dia para tirar fotografias sem que ninguém perceba, não obstante consegui adquirir estes três instantâneos. Como você pode ver, o indivíduo parece fisicamente bastante competente, e tem um admirável desejo de se proteger de um possível incêndio. Assim que puder verificar em que cidade ele está, serei capaz de prover mais informações concernentes a um possível recrutamento ("levar").

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