Capítulo 5 - Quem é Beatrice?
NOTA PARA ARQUIVO:
Os seguintes papéis foram encontrados esvoaçando no Distrito
Financeiro da cidade.
Querido Pecuário:
Os arquivos d'O Pundonor Diário — uma frase que aqui
significa "todas as edições, sem exceção, de um determinado jornal,
reunidas em uma grande coleção" — foram destruídos. Talvez tenha
sido insensato manter essa coleção à vista de todos, em vez de trancá-la bem
trancada, mas até mesmo as mais seguras coleções de informações — a Biblioteca
de Registros do Hospital Heimlich, que era mantida atrás de uma porta trancada,
ou os livros do Dr. Montgomery, que eram guardados por répteis vigilantes — se
foram agora, portanto talvez não tivesse feito diferença se os arquivos d'O
Pundonor Diário tivessem sido simplesmente empilhados ao longo de uma rua
em uma cidadezinha perto da Floresta Finita. Nossos inimigos teriam achado os
jornais decisivos não importa onde estivessem escondidos, e os teriam
destruído. Sempre que caminho pelas ruas dessa cidade, agarro logo qualquer
jornal que esteja esvoaçando pelas calçadas, só para o caso de documentos
importantes do arquivo não terem sido destruídos sumariamente e aparecerem, trazidos
pelo vento, de volta à cidade. Devo ser uma visão ridícula — uma mulher adulta chapinhando
na Fonte das Finanças Vitoriosas, atrás de um fragmento de jornal —, mas é a
minha única chance de limpar o nome de Lemony Snicket, se é que ele ainda está
vivo.
Até agora, os papéis certos me escaparam. O mais perto que cheguei
foi encontrar esses artigos, que apareceram na Seção de Teatro, no decurso
daquela longa e terrível semana. Envio-os a vocês, caros queijeiros, para que
possam pô-los junto com o resto dos papéis do meu irmão. "Aqui o mundo é
sereno."
Uma Noite no Teatro
do crítico teatral, Lemony Snicket
Mesmo depois de mais de um ano escrevendo resenhas teatrais para esta
publicação, há muitas coisas que ainda não entendo. Não entendo como o inspetor
Auster sabia que o motorista de táxi estava mentindo na última temporada de O
caso do assassino vegetariano, ou por que havia um número de sapateado no
meio de Cuidado com aquele machado!. Também não entendo por que o Teatro
Nancarrow permite que o público traga carneiros vivos para o recinto, mas
somente nas noites de sábado, ou por que permite que uma peça sobre gatos
cantores seja encenada. Não entendo por que Shirley T. Sinoit-Pecér ganhou o
Prêmio Brooks-Gish de Melhor Atriz apesar de algumas pessoas suspeitarem que na
verdade ela era um ator, e não entendo por que algumas pessoas vão ao
teatro quando aparentemente prefeririam estar desembrulhando balas ou falando ao
telefone, e finalmente não entendo por que acham que devo aplaudir um bando de
dançarinos magrelos só porque eles são capazes de ficar na ponta dos pés por
mais tempo do que eu.
E agora há algo mais que não entendo. Por que houve tantas
mudanças na peça quando foi apresentada no Teatro Ned H. Rirger? Como meus
fiéis leitores hão de se lembrar, escrevi na semana passada uma resenha sobre a
apresentação de uma peça intitulada Aqui o mundo é sereno, da dramaturga
desconhecida Linda Rhaldeen, no Teatro Rirger. Nesta mesma coluna, afirmei: "Aqui
o mundo é sereno é a peça mais importante da estação, e não importa se você
vai ao teatro por diversão, ou se vai para receber importantes informações
codificadas, certamente terá uma noite agradável e/ou produtiva". Lamento
dizer que devo retirar cada palavra daquele elogio depois de assistir a
apresentação da noite passada.
Para começar, um comunicado na nova produção revela que o nome da
autora saiu com um grave erro tipográfico, e que a peça era na verdade obra de
Al Funcoot. Meus fiéis leitores hão de se lembrar que não apreciei os esforços
anteriores do Sr. Funcoot. Chamei sua primeira peça, O homem mais bonito do
mundo, de "um espetáculo enfadonho e arrogante", e me referi à
sua seqüência, Ora, acredito ter ficado ainda mais bonito!, como
"nada além de uma desculpa para o astro da sobrancelha única se
exibir". Além disso, o título da peça foi modificado, do nobre e
significativo Aqui o mundo é sereno para o vagamente ameaçador Um
último aviso aos que tentam atravessar meu caminho. Pelo menos, é
isso que eu acho que é o título — as mudanças aparecem no programa
escritas a carvão, e algumas palavras são difíceis de ler.
Um último aviso aos que tentam atravessar meu caminho agora se anuncia
como "comédia", mas este crítico não achou graça. Foi-se o crucial
número de abertura, "Deixem o sino tocar", e em seu lugar está uma
irritante cançoneta intitulada "Apresentando um homem muito bonito".
As duas atrizes que representam as Defensoras da Liberdade estão agora com os
rostos pintados de branco-cadavérico, e o papel do Rapazinho Sebald, antes
representado pelo jovem ator aqui retratado, foi substituído por uma pessoa de
aparência sinistra, velha demais para o papel (também retratada aqui). Mas a
substituição mais deprimente é a da atriz principal. Meus fiéis leitores se dão
conta de que sou algo suspeito nesse caso, pois estou noivo e vou me casar com
a atriz original, mas na noite passada o desempenho de Esmé ??? (seu sobrenome estava
borrado no programa) foi simplesmente pavoroso. Essa Esmé não é atriz. Não é
cantora. E não sabe assobiar a Décima quarta sinfonia de Mozart, como a
peça — isto é, a peça original, Aqui o mundo é sereno — requer. Quando
Esmé liderou o elenco inteiro no número final ("Ponha todos os seus
objetos de valor sobre o palco ou algo de horrível poderá lhe acontecer"),
eu me retirei enjoado do teatro. Comédia, pois sim — Um último aviso aos que
tentam atravessar meu caminho mais parece uma trama vilanesca.
Só espero
que esta resenha seja lida pelo público em geral antes que seja tarde demais
para escapar, ou receber seu dinheiro de volta.
COMUNICADO
da editora-chefe, Eleanora Poe
Devido a suas opiniões de bizarra rudeza na coluna de ontem, nosso
crítico teatral Lemony Snicket foi despedido. Eu mesma, editora-chefe d'O
Pundonor Diário, recentemente compareci a uma apresentação de Um último
aviso aos que tentam atravessar meu caminho, de Al Fun-coot, estrelando
Esmé ??? (o sobrenome estava borrado no programa), e tive momentos
maravilhosos. Desde o número de abertura, em que um homem bonito se apresenta
ao público, fiquei absolutamente enlevada, e no final da noite, de tão feliz
que estava, joguei minha bolsa e minhas jóias no palco.
A título de desculpas à estrela do espetáculo, não escreveremos nada
a não ser coisas agradáveis sobre ela de agora em diante, inclusive um artigo
especial na edição de amanhã intitulado "Atriz, consultora financeira e
mulher solteira: Como Esmé consegue?". O Pundonor Diário reconhece
que celebridades devem ser elogiadas, e não criticadas. Claramente,o Sr.
Snicket permitiu que sua vida romântica interferisse nos deveres profissionais,
mas isso não se repetirá. Esta coluna será imediatamente substituída por uma
nova, intitulada "Organizações secretas que você precisa conhecer",
escrita pela nova repórter Geraldine Julienne.
Para encerrar, permitam que eu me desculpe pessoalmente por qualquer
inconveniência causada pelas opiniões pouco profissionais do Sr. Snicket, e
agradeça a vocês, fiéis leitores, pelo reiterado apoio a O Pundonor Diário.
Uma Noite no Teatro
do crítico teatral, Lemony Snicket
Como sabem meus fiéis leitores, fui despedido do emprego como crítico
teatral, supostamente devido a minhas opiniões negativas à pavorosa peça de Al
Fun-coot, Um último aviso aos que tentam atravessar meu caminho, e
a sua atriz principal, uma mulher extremamente desagradável e sem nenhum
talento chamada Esmé. Acho apenas que é justo informar a vocês, meus fiéis
leitores, a verdadeira razão por que fui dispensado. Eleanora Poe, a
editora-chefe deste jornal, (trecho com chuviscos...)
COMUNICADO
da editora-chefe, Eleanora Poe
Sinto que, mais uma vez, preciso disciplinar nosso ex-crítico
teatral, Sr. Lemony Snicket, que tentou publicar mais uma coluna n'O Pundonor
Diário desta manhã. Tenho certeza de que os fiéis leitores de nosso
glorioso jornal não estão interessados em ler comentários críticos sobre
atrizes e dramaturgos muito talentosos. Isso não é trabalho de crítico, e é por
isso que o Sr. Snicket não tem mais espaço nesse órgão.
De agora em diante, manteremos as portas da gráfica bem trancadas fora
do horário de uso.
Para encerrar, aceitem mais uma vez meu pedido de desculpas por qualquer
inconveniência causada pelas opiniões pouco profissionais do Sr. Snicket, e
recebam meus agradecimentos pelo reiterado apoio a O Pundonor Diário.
Aguarde a coluna de Geraldine Julienne
"Organizações secretas que você precisa conhecer,"
a partir de amanhã!
---------
K.,
Não é seguro para mim guardar essas duas cartas por mais tempo, e,
por razões que não preciso explicar, é impossível para mim escrever ao Sr.
Snicket. Você poderia fazer o favor de guardar as cartas em um lugar seguro
(talvez com Ike, ou naquela fazenda de laticínios de que me falou)? Espero —
como todos nós — que algum dia esses documentos venham a salvar pelo menos três
vidas.
Se você me fizer esse favor eu jamais esquecerei, assim como não
esqueceria a localização do nosso jipe secreto, ou o Código Sebald.
Caro Sr.
Snicket,
Congratulações
pelo seu iminente casamento! Nós do vinhedo dos Cachos Sumarentos e Capitosos
nos enchemos de alegria ao saber que o seu futuro inclui sinos de casamento
tocando.
Olá. Em
anexo, uma fotografia premiada do nosso belo coreto nupcial. Se preferir, o
coreto pode ser pintado em uma cor diferente. Você ou sua futura noiva precisam
apenas nos informar — o vinhedo está à sua inteira disposição. O branco torna o
ambiente mais vivo, em nossa opinião, mas pintaremos o coreto de novo caso não
pense assim.
Como
especificamente solicitado, cuidaremos para que a comida venha, não do Palhaço
Ansioso ou Café Salmonela, mas dum lugar aqui nas vizinhanças, um restaurante
fino e especializado em chás dançantes. Porque nós do vinhedo gostamos de
agradar aos nossos clientes, é o nosso dever garantir que açucareiros, todos
fornecidos pelo Restaurante do Conde, estejam no lugar.
Além de
coreto e bufê, o vinhedo vai fornecer gratuitamente os seguintes acessórios
para o casamento: velas para queimar na cerimônia, arranjos florais, uma
certidão oficial de casamento que você provavelmente vai querer emoldurar para
poder pendurar na sua casa, e, de suvenir, numa encantadora fotografia de nossos
campos, a inscrição "Beatrice e Lemony: O Amor Supera Quase Tudo", Quanto
ao tempo, fique tranquilo: promete estar lindo a semana inteira. Chuvas, vão
para longe! Toquem, toquem, toquem, sinos nupciais!
Respeitosamente,
O Vinhedo
Caro
Sr. Squalor,
Congratulações
por seu iminente casamento! Nós do Vinhedo dos Cachos Sumarentos e Fragrantes
nos enchemos de alegria ao saber que seu futuro inclui cerimônias de casamento.
Enviamos
anexa uma fotografia premiada de nosso belo coreto nupcial, que no momento está
pintado de branco. Caso prefira podemos repintá-lo de uma cor diferente. O
senhor ou sua futura noiva precisam apenas nos informar sua preferência — o
Vinhedo está à sua inteira disposição. Em nossa opinião, o branco faz o
ambiente parecer fantástico.
A
comida, como o senhor especificamente solicitou, virá do Café Salmonela.
Lamentamos não poder fornecer açucareiros, como solicitado por sua noiva Esmé,
em uma carta separada. Aqui no Vinhedo, prezamos a satisfação de nossos
clientes, mas algumas coisas são simplesmente impossíveis.
Além
de coreto e bufê, o Vinhedo ainda disponibilizará, sem custos adicionais, os
seguintes acessórios para o casamento: velas para acender na cerimônia;
arranjos florais; uma certidão oficial de casamento, que o senhor certamente
vai querer emoldurar e pendurar em sua recém-adquirida cobertura; e, ainda, a
título de suvenir, ofereceremos uma encantadora fotografia de nossos campos,
com a inscrição "Jerome e Esmé: Casados Após Apenas Uma Noite Juntos".
Não
podemos prometer que o tempo continuará bom durante a semana inteira, é claro,
mas esperamos que assim seja.
Respeitosamente,
O
Vinhedo









Comentários
Postar um comentário
Nada de spoilers! :)