Capítulo 7 - Por que há uma passagem secreta entre a mansão Baudelaire e a Avenida Sombria 667?


O PUNDONOR DIÁRIO
"Todas as notícias em paroxismos impressos"
ASSASSINATO NA SERRARIA ALTO-ASTRAL!

A Serraria Alto-Astral, localizada na pequena cidade de Paltryville, foi cenário de um assassinato horripilante. Antes que os detetives chegassem, um voluntário que deseja manter em segredo sua identidade (ver foto à direita) chegou ao local e investigou meticulosamente a questão, chegando à conclusão de que o responsável foi conde Olaf, juntamente com um comparsa que vivencia perda de cabelos cujo nome (restante da matéria ilegível...)

O voluntário, examinando equipamento de madeireiro usado no assassinato

O PUNDONOR DIÁRIO
"Todas as notícias em paroxismos impressos”
ACIDENTE NA SERRARIA ALTO-ASTRAL!

A Serraria Alto-Astral, localizada na pequena cidade de Paltryville, foi cenário de um acidente horripilante. Três detetives, que alegremente forneceram seus nomes a O Pundonor Diário (ver foto à esquerda), chegaram ao local imediatamente e investigaram a questão a fundo, chegando à conclusão de que não houve responsável pelo crime, uma vez que tudo não passou de um acidente. "Mais um caso resolvido sem qualquer ajuda dos voluntários!", comentou o detetive Smith ou o detetive Jones, esqueci qual dos dois. "A única coisa ruim nesse caso, além da morte, é que derramei café na minha jaqueta."

Detetive Smith, detetive Jones e detetive Smithjones, examinando equipamento de madeireiro
usado no acidente.


Querida Esmé,
Meu Deus!!! Foi emocionante receber uma carta de alguém importante como você. Imagine só, você, que não apenas é a sexta consultora financeira mais importante da cidade, como também uma atriz famosa, escrevendo para uma repórter sem importância como eu!! Como você sabe, a editora-chefe d'O Pundonor Diário acabou de demitir o crítico teatral, cujo nome me escapa (nunca fui boa com nomes, mas isso não faz de mim uma repórter menos competente!!), portanto estou muito segura de que você nunca mais vai receber uma crítica ruim por suas atuações no palco, seja participando de uma peça de Al Funcoot, ou de qualquer outra coisa.
Algum dia espero publicar uma matéria realmente importante — talvez sobre um assassinato —, mas enquanto isso, como você sabe, apenas escrevo uma velha e maçante coluna chamada "Organizações Secretas que você precisa conhecer". Às vezes, para deixar a coluna mais excitante, escrevo sobre boatos ou coisas que inventei, em vez de fatos. A seu pedido, vou revelar o que era verdade e o que era mentira no meu texto sobre a Avenida Sombria 667:
1. É verdade que a cobertura da Avenida Sombria 667 foi recentemente vendida a um Sr. Jerome Squalor;
2. É verdade que o Sr. Jerome Squalor não é casado;
3. Conforme você me pediu, fiz essas averiguações sobre os locais onde você poderia encontrá-lo. Ele toma café-da-manhã todos os dias no Cozinha Sabor Criptográfico, um restaurante muito in. Você poderá encontrá-lo "por acaso" lá entre sete e meia e oito e meia da manhã.
Boa sorte, Esmé! Me sinto muito lisonjeada por uma atriz famosa e talentosa como você se dar ao trabalho de me escrever! Se alguma vez você precisar de mim para fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa —, por favor escreva de novo, e eu farei sem titubear!
Sua leal fã,
Geraldine Julienne
P.S. Você é o máximo!!!



Caro Jerome,
Fiquei alarmado ao receber seu convite de casamento, e escrevo para dizer que em hipótese nenhuma você deve se casar com aquela mulher, seja no vinhedo dos Cachos Sumarentos e Capitosos — digo, Fragrantes, é claro — ou em qualquer outro lugar.
O motivo pelo qual você não deve se casar com Esmé é o mesmo pelo qual lhe implorei que comprasse a cobertura na Avenida Sombria 667 e nunca, jamais, a vendesse, e isso pelo mesmo motivo por que as pessoas jamais deveriam se tatuar. Não posso explicar que motivo é esse por dois motivos. O primeiro motivo para não explicar que motivo é esse é que fiz um juramento solene de jamais expor esse motivo a ninguém.
O segundo motivo para não revelar o motivo é que, se você tomasse conhecimento desse motivo — ou mesmo dos dois motivos que me levam a não explicar meus motivos —, isso seria motivo para que de repente você se visse em perigo. Mesmo que eu não explique que motivo é esse pelos dois motivos que expliquei, quero dar a você uma explicação razoável, portanto vou contar tudo o que posso.
Não sou um detetive de verdade, meu amigo. Sou membro de uma organização que requer que seus membros finjam exercer diversas ocupações, inclusive de detetive, capitão de navio, crítico teatral, duquesa, garçom e muitas outras. Durante anos essa organização se portou de maneira tão nobre como secreta, mas recentemente houve uma cisão, uma palavra que aqui significa "um membro da organização que da noite para o dia passou a se comportar de modo ganancioso e violento, provocando a divisão da organização em dois grupos rivais". O membro a que me refiro — vou chamá-lo de O, embora ele prefira S — perpetrou recentemente uma grande quantidade de atos perversos, injustos e indelicados, que só de descrever já me causam arrepios.
Talvez você esteja se perguntando por que não tem lido nada sobre esses atos perversos, injustos e indelicados no jornal, mas tenho motivos para acreditar que O, de algum modo, encontrou um jeito de alterar as matérias d'O Pundonor Diário para evitar sua captura. Por exemplo, uma matéria recente descrevia um acidente fatal na Serraria Alto-Astral, resolvido por um detetive que reclamou ter derramado café na jaqueta. Mas eu, agindo como voluntário, cheguei à serraria antes dos detetives, e logo percebi que aquela morte não tinha sido acidental.
Um dístico, que encontrei recentemente na aldeia onde estou escondido, explica melhor o que aconteceu:
Alguém no jornal, mais uma vez, a matéria alterou;
Não café, mas tinta preta, aquela jaqueta manchou.
Por favor, Jerome, não se case com essa mulher.
Respeitosamente,
Jacques Snicket


Caro Jacques,
Fiquei desapontado por não ter notícias suas depois que o convidei para meu casamento, cheguei a perguntar ao porteiro do prédio se por acaso não tinha entregado em lugar errado alguma correspondência recebida durante a lua-de-mel, mas ele riu só de pensar nisso. Em todo caso, porém, decidi escrever mais uma vez.
Esmé e eu estamos casados e felizes, moramos na cobertura que você me implorou que comprasse e nunca, jamais, vendesse. Talvez você possa explicar por quê, caso venha nos visitar. Ela diz que não vê a hora de encontrá-lo para lhe dar o que você merece. Presumo que ela se refira a algum tipo de presente, mas quando pedi a ela que me explicasse do que se tratava, ela ficou zangada, e, como você sabe, não suporto discussões.
Vou entregar esta carta ao porteiro para me certificar de que chegará a suas mãos. Eu odiaria perder o contato com um amigo como você.
De seu camarada,
Jerome

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